Wednesday, October 21, 2009

Ciberdúvidas

- Um gajo que foda a sua própria vida toda, isso é considerado onanismo?

Thursday, September 03, 2009

Amar o inverno


é o meu único amor inteligente.

Thank you for the music? No.


O talento musical não é o mais interessante nesta senhora, lamento, discordo.

I'm so full of shit (alegórica ou literalmente?)



(Cuidado, click to enlarge é tão alegórico quanto literal.)

Wednesday, July 29, 2009

Vida áurea






































































Uma mulher em discurso directo:






































































































































































































































































































































“Anda aí tanta gaja com a cara destapada, até ofende, pelo que têm para mostrar; estas coitadas assim cobertas sem nada que se veja, podem ser lindas de morrer, podem ser lindas de ressuscitar; um dia que consigam sair à rua com um decote generoso e uma saia curta, vocês homens morrerão todos consolados, mas morrerão.”

Friday, July 03, 2009

Minolta Maxxum 9


Corremos em direcção aos óculos de sol, os que não os temos postos o tempo todo, somos poucos.

Apuramos os gestos e a pose, esta fotografia será um troféu, no parapeito da lareira, junta a outras fotografias de entres queridos mortos e vivos, entre quinquilharias, foles, velas, loiças, lembranças das férias, bonecas de época em porcelana, várias, colecções de objectos que os jornais oferecem por mais uns cêntimos, o espaço é pouco para expor tanto orgulho.

Amparamos o bicho, em agonia, eu tê-lo-ia devolvido à água depois de satisfeito o espanto. Tu não me deixaste, dizes que vamos cozinhá-lo e comê-lo, eu replico que os peixes de rio cheiram a bafio, muito intenso, vai ser uma refeição estragada, viras-te com uma expressão irada, eu calo-me, condescendo, acerto a posição dos óculos e do boné, o cavalheiro simpático que no aponta a câmara percebe disto, coloca-se de forma a realçar o tamanho do peixe, os efeitos de óptica e perspectiva de que ouvimos falar mas não sabemos na prática como se conseguem com uma pequena máquina fotográfica.

Clic (digital).

Já está.

A conversa de pescador é insusbtituível.

É o exemplo exagerado da capacidade do ser humano para a ficção. É com muita naturalidade, dentro da literatura, um domínio autónomo.




Wednesday, July 01, 2009

Só azar


Luís Gonzaga Gouveia, este era o nome do pai do meu pai.
Contemporâneo deste rapaz aqui acima, conheci-o sereno, sisudo, severo, muito severo.
Homem de poucas palavras, quase nenhumas, houvesse forma de o fazer exprimir toda a construção interior de uma vida silente, haveria de ser bonito o resultado.
Ainda encontro semelhanças no meu pai, embora o meu avô fosse DEVERAS (olha a palavra mais horrível de toda a colecção delas portuguesas) parecido com o DOUTOR António de Oliveira Salazar, por quem nutria uma grande simpatia, acrescentaria afinidade intelectual, mas aí já especulo muito, eu que não entendo nada de operações da bolsa de valores.
Avalio-me e ao meu carácter neste confrontos, em que tento trair os meus genes, a minha herança; rezo para ser deserdado, para ser DEVERAS neto do Beckett, e nadinha neto do Salazar. Rezo e recito preces, na ansiedade me serem concedidos também 50 dias de indulgência.
Não sei o que é melhor... assim no singular: indulgência, em que têm os crentes de subentender qual a indulgência mais própria, mas seja ela qual for, é uma barrigada; ou no plural: indulgências, em que ficamos servidos com todas as que queiramos consumir do cardápio.
50 dias de indulgência.
Voltarei cá pelo dia 19 de Agosto.
Gostaria de contribuir para um estudo que nos explicasse como é possível termos suportado um ditador tão afável, tão cândido, com uma voz tão esganiçada. Até nisto ser português é embaraçoso, tivemos um ditador mariquinhas, com vozinha esganiçada, e não houve forma de golpear o Estado com sucesso durante quarenta e um anos?
Pois, em Espanha também não o conseguiram em período pouco menor. Sim, pois, mas a Espanha tinha um ditador a sério, matavam pessoas às centenas de milhar, o medo era genuíno e horroroso, não era um sentimento de medo pelas queixinhas e pela ameaça de prisão, quarenta e um anos a manter as aparências deixaram-nos o legado da hipocrisia como modo de vida. Em Espanha o ditador rugia, imprevaca, ameaçava, matava, em Portugal... o Salazar miava e fazia caras sérias e melancólicas. Nem um cabrão de um ditador a sério conseguimos produzir?

Monday, June 29, 2009

Les Misérables


Victor Hugo era muito bom em desporto, exímio masturbador, bom em matemática. Terá ajudado a empregar-se num banco. Era baixo como eu, embora sendo mais esguio não se notasse tanto. Não tinha qualquer sotaque aqui da zona, havia nascido em África e de lá retornado para esta terra a norte, o pai era professor de alguma matéria que me escapa, creio até que noutra escola diferente da nossa, julgo que tenha ajudado a que o discurso dele soasse diferente, tão polido e melodioso, limpo, bem diferente da nossa fala afectada pela ruralidade. Na altura eu julgava-o mais alto, com as minhas origens, classe média era além da troposfera, que ferramentas tinha eu para medir estatutos? Ainda assim, classe média era um grande estatuto na cidade ali ao lado. Morar na zona mais nobre, numa vivenda, rodeada já de edifícios quatro vezes mais altos, penso, deveriam ser ajuda nessa coisa da condição social.

Lembro-me do dia em que os amigos mais chegados foram admitidos no antro íntimo.
Dia de praia, à boleia, toda a turma, peixe-aranha debaixo do pé, paulopontog toda a tarde encostado à toalha, sofrendo, queimando. Sorte a minha não ter sido exposta a minha incompetência enquanto jogador de voleibol. Cheguei rubro a casa, besuntei-me com o Caladryl da época, parecia o Rocky Balboa, pela posição de queimado de braços afastados do corpo, despido da cinta para cima, por ser então muito musculado, juro, dirigindo-me a uma sardinhada combinada.*

Encontrámo-nos em sua casa antes de sairmos, manhã cedo como se fôssemos para as aulas.
Ele era o pornágrafo mais desabrido, mais luxuriante, mais emocionável com a mulher e qualquer representação dela. Essa era uma afinidade forte que nos aproximava. Embora eu exuberasse muito, muito menos. Admito que ele chegava a ser eloquente no seu fascínio e deslumbramento pelos rabos-de-saia.
Fomos imediatamente convidados a apreciar a parte da pornografia que guardava na casa-de-banho. Pornografia muito avançada para miúdos de dezasseis anos (agora recordo, ele era um pouco mais velho). Daquele sítio da casa poderia ver a Sandra em ginásticas na garagem, conseguia masturbar-se dali a vê-la, já trocara uns beijos com ela, já lhe sentira totalmente os peitos exagerados de grandes (e, imagino eu agora, ainda longe da forma da maturidade). Pobre Victor Hugo, entusiasmado com todos esses relatos, com a boca cheia de pastilha elástica tentando impressionar-nos, até excitar-nos, eu tentando aquietar a aversão que ali se inaugurava quanto a beijos e a sobejos de saliva!
Isso foi há vinte anos atrás.
Há quinze anos atrás, num bar dos arredores da cidade aqui vizinha, onde eu me embriagava tranquilamente com regularidade, chegaram umas caras femininas infrequentes por ali. Surpresa, uma delas eu reconhecia, era a Cláudia, e deixou-me assombrado com a sua pele bonita, livre da acne desagradável e agreste que lhe ocupara anteriormente toda a cara, por isso ou acrescida a essa felicidade, estava elegante, adorável, uma tentação. Eu provocava-a quanto podia, enquanto colega de escola, mas nunca tinha sentido qualquer desejo por ela, era tudo inocente, ela reconhecia a minha atenção anterior, e notava que a minha atenção nesse reencontro era muito mais mal intencionada. Pensaria ela, com toda a naturalidade, ora, ora, mais um que agora até se deita e rebola se eu o ordenar.
Que grande sorriso tinhas, Cláudia.
Foi pena não ter recebido qualquer juro merecido por te ter alegrado quando eras um patinho feio e roliço, em forma de alegria tua com o teu corpo tão prometedor. Lamento mas sobrevivo.

Com ela estavam raparigas que não eu conhecia mas não conseguiam deduzir qualquer quantidade do meu interesse pela magra Cláudia. Uma delas roubou-me com violência a atenção. Era a noiva, a presença delas ali era a despedida de solteira daquela rapariga baixinha, loira, com um ar bastante mais adulto. Sorri-lhe muito! Pois, então, que divertido! Despedida de solteira, que divertido! Eu sem ideias para desenvolver qualquer conversa, e também sem grande vontade em consegui-lo...
A noiva. A noiva do Victor Hugo. O meu espanto alterou-me.

Nessa mesma noite, mais tarde, na discoteca da cidade aqui ao lado, encontrei-o a ele, e confirmei tudo, nesse momento sem grande curiosidade minha, ele também não tendo trabalho em disfarçar o aborrecimento em abordar o assunto, apenas se arrebatando quando me perguntou:
- Trazes amigas?

Não sei o nome da noiva, sei isto: enquando concentrava nela o meu rosto e a minha necessidade de entender, fiz a pergunta errada, notando logo depois o que era demasiado evidente, o que só agravava a rudeza da minha pergunta.

“Noiva do Victor Hugo? Tu vais casar com o Victor Hugo? Não é possível, o Victor Hugo só estaria agora a casar-se se tivesse engravidado alguém, foi isso que te aconteceu?”

E sempre é assim narrado mesmo quando assim não é: o olhar dela disse tudo. Disse que eu era tão vulgar e bruto quanto todas as outras pessoas que lhe perguntaram o mesmo com a mesma incredulidade maldosa. Tão imbecil para também não reparar no evidente e ser um mínimo discreto quando à evidência. Tão repetidamente desagradável por estar a expor o erro dele, ou o erro dela, ou o disparate que é querer salientar um erro e moralizar a situação. Que horror para um moço da aldeia como eu, ela ia casar grávida, muito grávida! O horror do saloio, o horror...

A cara dela disse mais, talvez por ter seguido a minha cumplicidade singular com a Cláudia, disse que estava horrorizada pela boa impressão inicial, que eu ali acabara de arruinar com espalhafato.

Na altura, não percebi. Mesmo passados quinze anos receio não ter ainda percebido tudo.
É isso que me inquieta.










* O que eu implorei para me deixarem ir a um passeio escolar no dia seguinte, onde me esperava e encontraria com a Marta. A Marta era loira, vistosa, mostrava pouco das pernas, mas o que mostrava era apelativo. Não sei como é que aconteceu tal peripécia, sei que me caçou para uns beijos. Também só bastante tempo mais tarde percebi que a Marta, que eu julgava um pouquinho lenta e inexpressiva, era de facto uma mulher muito inteligente (essas coisas, todas as miúdas giras ou quase giras da cidade ali ao lado foram aprender medicina, o que é pelo menos um atestado que têm uma muito superior capacidade de estudo, maior do que a dos diletantes coleguinhas de turma ou escola) e manhosa, os beijos que me deu, a companhia, as combinações para jogarmos ténis, as mãos dadas e a cara sonsa eram ardis para provocar ciúmes ao namorado que lhe passara pela boca e peito e andara adiante, exactamente, sim, o Victor Hugo.

Não me deixaram ir. Pai, mãe... seus maus.

Sunday, May 24, 2009

I don’t want to fuck Julia Roberts if I have to do such a thing – Sorry, Emy


Importava pouco se já alguém lhe havia afirmado tal. Percebi que não. Ou talvez a negação se repetisse por tão veemente ser.

“Sabes que esses teus tiques e trejeitos são os mesmos da Julia Roberts? Como é que consegues? Treinas-te diante do espelho?”

Mesmo sendo eu um espectador algo distante da actriz, de tão evidente, era imediato recolher as coincidências, especialmente aquele arquejar de sobrancelhas que lhe levanta a ponta do nariz, esse mesmo, que faz temer que haja ali DNA de coelho misturado com DNA humano. Os olhinhos de devota, com eles e apenas com eles apresentando um gigantesco sorriso. Um conjunto de gestos e articulações do rosto que denunciavam abertamente os arremedos.

Pouco importa também calcular exactamente há quanto tempo lhe afirmei isso (houve alguma fricção nesse momento, porque a Emy pensou que eu a acusei de imitar a Julia Roberts, é difícil apresentar um facto sem que este seja classificado de ofensivo ou não ofensivo, e uma afirmação num segundo é tida como uma acusação), mas foi há quatro, cinco, seis anos atrás. Eu lembro-me, ela lembra-se.

O que me incomodou durante algum tempo foi não perceber o porquê! Para quê? Por que razão um mulher adulta se põe a imitar, consciente ou inconscientemente, outra mulher adulta? Não percebia. Embora eu tenha ido mais longe, eu acreditava que ela havia treinado diante de um espelho para se parecer com a Julia Roberts.

Por que razão quer uma mulher parecer-se ou até mesmo ser como a Julia Roberts?

Não percebia, claro que não percebia, são comportamentos que um homem não percebe. E quando percebe, passados quatro, cinco, seis anos, espanta-se com espalhafato.

A Emy quis ser amada pelo Richard Gere. Era isso. A Julia Roberts era uma variável num cenário amoroso, poderia ser outra mulher, mas era ela.

A Emy, uma mulher cujo coração se enternece com histórias das histórias do Nicholas Sparks e Richard Bach (de quem não posso desdenhar, mas sinto uma ardente tentação de o fazer, embora sem sustentação); tem a sua construção e estruturação do amor, o seu romantismo, situado nessas coordenadas, nesse imaginário, em filmes como o Pretty Woman, do qual vi o suficiente para presumir que sei do que falo. Entendo que muitas mulheres ficaram enfeitiçadas pela história e pela ideia estupefaciente de que o senhor Gere é um talhante de corações e mucosas femininos, um galã assombroso, desejaram por ele ser beijadas até perderem os sentidos, e, ao recobrarem os sentidos, desejaram estar a acasalar com o senhor Gere, no lugar da Júlia Roberts.

Por isso queriam (ou, falando da Emy, queria, no singular) parecer-se com a Julia Roberts. Queriam conseguir o que a Julia Roberts conseguiu, dentro da ficção, pois bem.

Reafirmo que isto é de entendimento custoso para uma mente masculina. Há uma explicação fulminante: nunca nenhum homem imitaria o Richard Gere para conseguir acasalar com a Julia Roberts.

Este é um exemplo extremo, por um limite da decência que um homem tenta manter distante, e imitar os trejeitos trapalhões do senhor Gere (persigno-me só de imaginá-lo piscando repetidamente os olhos, parcialmente inclinado para o chão, como quem pensa profundamente, essas coisas, deus me perdoe) está muito para além de qualquer limite ou fronteira da decência.

Mesmo que a compensação seja a mais grandiosa e promissora cópula.

Friday, May 15, 2009

To be or not to be (1) lost in translation (2)

- Traduz-me o texto.
- Não, terás de aprender a língua.


(1) mais um sonso a gastar a frase sem ter lido Hamlet...
(2) terei sido o único a bocejar extensamente durante o filme da Escarlate?

Thursday, April 30, 2009

Seiscentas mil razões para detestar a versão mais conveniente da História







Dresden.



Bonito serviço dos grandes, grandes, grandes, grandes, grandes, grandes filhos da puta dos Aliados.



Ser ocidental é um disparate, é ser alimentado por fantasias estimáveis, sim, até sensuais, só que construídas sobre a desgraça dos outros, dos orientais, dos austrais, dos boreais.
(600.000 é a estimativa mais exagerada, embora a raiva permita e até legitime ir além no exagero.)

Thursday, April 23, 2009

Seria feliz, juro



simplificado assim o trajecto eu tivesse meu


meu assim simplificado o tivesse trajecto eu


assim eu o tivesse simplificado meu trajecto


tivesse eu o meu trajecto assim simplificado



irisado seria o meu futuro.



De onde és?


Perguntam.


De onde sou?


Pergunto.


Quando a uma pergunta simples e objectiva me falta a resposta, bem, só posso socorrer-me constantemente do caldeirão da ficção.


É tão simples apontar um lugar. Se me perguntarem mais sobre ele, poderei responder que saí de lá com meses de idade, é impossível ir tão longe na minha rememoração.


Montada a mentira, continuaria a faltar-me o lugar.


Por isto, inventei uma personagem que tem um lugar. Sem lhe roubar a vida própria, projectei-lhe a minha falha auto-biográfica; confesso que lhe absorvo a felicidade de ter um lugar seu tão perfeitamente definido.


Fiquei contente também com o nome que lhe descobri.


Socorro.


Sim, é uma mulher, sem ser Maria de coisa alguma, apenas a coisa alguma que é Socorro.
Galega como a couve.




Sunday, March 22, 2009

Munições dialécticas


"... devo confessar que julgo ter faltado somente à decência convencional, não à decência verdadeira e natural."

(Erotica Romana - Goethe; página 98, frase do editor original em correspondência com os detractores do texto)


Tantas vezes capitulei, encurralado, e havia (haverá sempre, para os hábeis) um argumento que me livraria do apuro. De cada apuro!, do alto deste momento declaro ser esta a manha com melhor utilidade para um embaraço sem saída, noventa e muitos por cento de utilidade, arrisco dizer.

Friday, March 13, 2009

My dear, I'm the undead


Nunca me distraí com o assunto, até ler há dias as traduções de um mesmo poema do Edgar Allan Poe feitas por Fernando Pessoa e Machado de Assis.

Caí de cu.

Peguei em duas edições distintas que tenho do Romeu e Julieta, uma delas com décadas, a outra com meses. Lado a lado, fui lendo o prólogo e o diálogo de Sansão e de Gregório.

Caí de cu.

É como ouvir uma história recontada por uma pessoa diferente.

Li o Dracula de Bram Stoker no idioma original, relembro imediatamente as cores da noite, as névoas, os silêncios da história, as texturas, a ansiedade e terror contidos, relembro perfeitamente o ambiente e até juro que reconheço o cheiro da terra contida no caixão em que o conde viajava.

E pergunto-me, tivesse eu lido uma tradução, seriam as cores as mesmas?, as névoas, os silêncios, as texturas, o ambiente, o cheiro da terra? E, numa segunda tradução, seriam também distintas as sensações?

Imagino perguntas semelhantes feitas já milhares de milhares de milhares de vezes, e até imagino respostas convincentes.

Fiquei em desassossego.


Isto quase a propósito desta notícia:


"Antropólogo diz ter descoberto cadáver de vampira em Veneza


O antropólogo forense Matteo Borrini encontrou numa vala comum de 1576, em Veneza, Itália, o cadáver de uma mulher, que se pensa ter sido vampira, por ter um pedaço de ladrilho dentro da boca.
De acordo com o investigador, em 2006, descobriu uma vala comum na ilha de Lazareto Nuevo, em que encontrou um corpo com um ladrilho na boca, que servia para impedir que a vampira atacasse os outros, mesmo estando sepultada.
Veneza foi devastada por várias pragas na Idade Média, pelo que era frequente as pessoas serem enterradas em valas comuns. Borrini afirma que, quando o povo de Veneza escavou algumas dessas valas, encontrou uma mulher com o ventre inchado e outras características que os levaram a crer que se tratava de uma vampira.
De acordo com a investigação, na época pensava-se que os vampiros, figuras a que as lendas ancestrais atribuíam a culpa pelas pestes, se alimentavam das «mortalhas dos mortos». Por isso, acreditava-se também que era preciso pôr uma pedra na boca do vampiro, para que este deixasse de se alimentar dos outros mortos e morresse definitivamente."


Que me deixou, sem surpresas, excitadíssimo.

Virou-me a banana do avesso.


(Na foto: Maila Nurmi; oh, I only hope she cared for bananas)

Tuesday, February 10, 2009

Diferenças menores entre Buffalo e Phillips, e outras diferenças mais











Foi algum o tempo durante o qual não conseguia perceber ou distinguir Grant Lee Buffalo de Grant Lee Phillips.

Inocêncio!

Bem, nem só as complexidades dão gosto à vida, também as simplicidades, mesmo que para gente pouco dotada – eu – sejam inicialmente obstáculos.

Agora é dócil distinguir, o antes é fundamental, o depois pede misericórdia, pelo menos alguma.

Conheci o olímpico Lone Star Song nos transportadores de fita de um lado para o outro, e do outro para um, continuamente, de leitura magnética, as amorosas cassetes que emprestávamos cheios de fé de conseguir impressionar as fêmeas, e aceder-lhes aos jardins húmidos e quentes através da boa impressão.

“They shot an angel in mid-flight and now she wont protect us / Shout it to the bedlamites we are westward ho”

Menos tenso de energias eléctricas, de outras tensões, a cadência quase impacientadora de Lady Godiva & Me, lutando injustamente para se fazer entender debaixo das más gravações, da más cassetes, dos maus leitores de cassetes, ainda assim, conseguia respirar o espírito da música, e até perceber-se uma pérola na letra:

“I wore a minotaur’s mask and I played the moon cow”

Que ninguém se engane, não ando por aqui infrequentemente a fazer crítica musical. Ando ao que ando, com as mãos cheias de senso comum e frases feitas diria que ando por aqui aos cucos. Não ando ou ando enganado.

Apenas pela música, os Grant Lee Buffalo soavam-me a banda mais sebosa de todo o rock and roll do final de século, como se tivessem alguma anomalia séria nas próprias glândulas. Sem ofensa, concluo que também poderia ser uma grandiosa estrela musical, não pelo sebo, ou não só pelo sebo, mas também porque nasci com uma cara tão retorta para bem me apresentar em qualquer Shining Hour.

Abstraiam-se das semelhanças com o Val Kilmer, é apenas Sr. Phillips himself.




Wednesday, February 04, 2009

Ei, touro!

Irremediavelmente migrado para os amantes da língua do outro lado do Atlântico, li há uns poucos dias atrás uma crónica do Rubem Fonseca, onde se catapulta da Vénus de Willendorf (coisa feia de ver, arte para olhos de outros tempos, vai de retro, Vénus velha) para outras considerações sobre puritanismo, pornografia e sexualidade.

É surpreendente ler-lhe os textos, brincam com a nossa intenção de prever onde vai ele levar o assunto; com muita elegância, Rubem dança-nos com o assunto na cara, provoca-nos uma falsa partida, e depois sai a correr noutra direcção, troçando serenamente.

Fico colérico, mas o homem toureia-me com uma destreza que me desarma qualquer desforra.

Rubem, ofereço a cerviz ao estoque.

Tuesday, January 13, 2009

Pinókia

Nunca haveria como escapar-lhe. Trabalho deste lado da Avenida, ela vive em frente, do outro lado. Aqui a umas dezenas de metros, quase consigo cheirá-la.

Poderia mesmo nunca a ter visto, sim, na teoria e nos números isso é verdade uma infindade de vezes, tantas que me confundo. Para ter fé, não posso atender aos números.

Uma vez sentou-se diante de mim, falou comigo. Não há outra versão: encontro-lhe beleza até em demasia. Mas, mas, mas, concedo que o nariz assuste muitos homens, e mulheres, e escorpiões, e até relógios Rolex falsos, seres inanimados e todos os outros que têm a alma metida lá no seu interior fundo e escuro. Fez-me perguntas, dei-lhe as respostas. Nessa pequena entrevista, embora mantendo-se séria e fatal, deixou perceber bem a mensagem de que estava disponível e fatal. Ela e o nariz, fatais.

Cyrano sem poesia, embora carregado de sexo predatório, algumas carências têm grandes compensações. Um epílogo do século vinte e um.

Via-a regularmente quando também eu contornava a rotunda atrasado para trabalhar, eu motorizado, ela caminhando, movendo massas de ar com a incrível ginástica das nádegas. Senhores, um matutino Moulin Rouge.

Não chego a explicar mas está lá, existe, aquela capacidade de movimentar exageradamente as nádegas, como uma nau, para os lados, mantendo a expedita passada em frente, à minha, à de todos, os acidentes contendo-se (confesso uma vez que comprimi as coxas, celebrando a excitação visual, aquele ostensivo e arrogante chamamento do pénis), contendo-se por pequenos trizes.

Ensaiei uma conversa de homens com um vizinho, este sem qualquer dificuldade em entender de quem eu falava.
É a mulher do engenheiro.

Fugazes e frugais avistamentos, na zona do tribunal, com alguma frequência na rotunda, essa, a do outrora presidente.
Incrível e fatal, ela e o nariz, entidades complementares, percebam a minha necessidade em distinguir ambas.

As fatalíssimas identidades.

Apesar disso, repito, desejo-a muitíssimo. A ela e à outra identidade.

Aqueles ares de Megève, a predisposição anunciando-se, cintura de vespa sobre o vasto rabo, delgada de tronco, feições tensas, elegantes, com a pontinha de severidade que a separa da vulgaridade.

A mulher do engenheiro.

No topo da minha lista de amantes desejadas.





Encontrei-os no Modelo, graças a Deus, generoso Deus!

Ela de saia até aos tornozelos, tecido castanho, fino, e a plena anunciação das nádegas, gloriosas bochechas do traseiro, sabiamente expostas (como se nenhum tecido as conseguisse ocultar, como o azeite é incapaz de se afundar e ocultar na água) pela douta escolha de um casado curto. Há-de haver um nome melhor, o correcto, aqui e agora será um casaco curto.

Muito curioso o olhar intrigado do engenheiro, como se conseguisse ler perfeitamente a situação, assim como a minha mente devassa e esfomeada. Mais imberbe ainda do que eu, autêntica cara de menino de coro, quase pueril, ainda deve consultar-se na pediatria – não, exagero. Se é a cara a montra do seu coração, compaixão minha, espero que assim o deseje a mulher, porque não é exactamente isso que se lhe vê na montra desta.

Foi um espectáculo. Estava a fazer compras? Não, ela estava a desfilar pelos corredores, catwalks de cereais e azeite extra-virgem.

Se a saia já permitia revelar todo aquele vaidoso cu, aquele cu teimava em querer aparecer em primeiro plano, engolindo completamente a cueca até ao início do vale. Sim, a mínima quantidade de cueca já seria o resultado da estratégia de susto e sedução, mas mesmo o sobrante dessa mínima quantidade de cueca foi tragada pelo impante cu.

Não a persegui pelos corredores, tive a felicidade de seguir um habitual itinerário semelhante ao seu, cruzei-me também um par de vezes com o olhar interrogativo e receoso do engenheiro. Soubesse eu construir a expressão facial, ter-lhe-ia transmitido que já havia subido ao alto do nariz e nádegas da sua legítima mulher, nariz e nádegas fatais. Oh, engenheiro, senti pena da tua vulnerabilidade, mas mais senti inveja dos teus privilégios conjugais.

Por coincidência, separaram-se dividindo tarefas e compras, assim como me separei da minha mulher, cada um com a sua bebé e o seu carrinho de compras.

Cruzámo-nos na fruta, muito próximos, olhou-me sem me olhar, estava a tourear-me, alternando distância com proximidade, acredito que me virou as costas para me dar uma melhor perspectiva da bondade da sua carne debaixo dos têxteis; babei-me mas lambi imediatamente a baba, receei ter sido visto, pareceria uma cena de sedução medieval.

Cruzámo-nos nos chocolates, muito discretos nos sinais, andava perto o engenheiro.

Cruzámo-nos nas massas, deixei a minha bebé entretida, de costas para nós, cheguei-me a ela, contornei-a, apertei-me contra ela, forçando o meu púbis contra o seu generosíssimo rabo, dancei-lhe a carne tenra contra a dureza viril do meu baixo-ventre. Virei-a para mim, não havia tempo de tentar encaixar-me no rosto dela, procurei o pescoço e articulei com febre os meus lábios num harmonioso pescoço, com cheiro autêntico de mulher, livre de perfumes tóxicos, cheiro e sabor de carne boa. Lancei-me contra ela, ela contra as massas, segurando-a pelos ombros, com o meu rosto escondido nos seus cabelos. Percebi que exagerei, manifestou-me o incómodo, tinha-lhe comprimido uma fofa nádega contra os cotovelinhos e contra as espirais. Compôs-se, compus-me. Deslizei-lhe a mão pelo braço, exprimindo a vontade de ir mais longe numa melhor oportunidade. Escapou-se, havia gente na loja com um interesse diferente pela secção das massas, a qualquer momento alguém apareceria.

Não o condicionei, foi inclinação da minha mulher, chegámos à caixa de pagamento, mesmo atrás deles, a centímetros daquele animal magnífico. Fiquei aborrecido por logo ter aberto uma caixa ao lado, e para ela termos sido desviados, de ter sido separado daquele perfeito molde sexual.

Fiquei pacificado, deitado à noite, abrindo os olhos no escuro, imaginando o engenheiro monitorizando-lhe o corpo ao deitarem-se, perguntando-lhe que marca espiralada era aquela no seu bom cu.

(Adenda, actualizando: hoje, 15/01/2009, descobriu onde moro, o cerco aperta-se, o abraço da boa constritora.)

Thursday, January 08, 2009

Sou pequenino, ino.


Pólo Paulo G


Alheio aos gelos e degelos, o meu coração continua debaixo de um severo inverno polar, como se o planeta tivesse um terceiro pólo, aqui pelas coordenadas
41º23'46.19'' N
8º30'57.22'' W
um palmo abaixo do meu queixo, um pouco para a esquerda, venham as exploradoras espetar-lhe uma bandeira.
O que me vale é que não preciso do coração para amar, até com um fio de cabelo amo, enquanto houver uma fracção de célula minha no mundo, haverá o suporte e o testemunho do meu amor.
Com esta do fio de cabelo, vai voltar do além o Byron para reescrever o Don Juan.

Tuesday, January 06, 2009

Ainda os entusiasmos

Uma encruzilhada?, um beco sem saída? A boca no rabo do fim do princípio?

Estou a tentar visualizar mentalmente o que me sugerem estas palavras, recomendo vivazmente o exercício a novos e velhos, gente redonda, quadrada, gente sem forma ou gente muito bem formada, gente insegura ou gente segura e assegurada, a todos nós e vós que já nos e vos descobrimos, e a todos nós e vós que ainda andamos à procura de nós e vós dentro de nós e de vós.

(Isto é um sarcasmo pouco fino em cima da afirmação muito pouco normal do António Lobo Antunes, algo semelhante a não ter qualquer interesse a história do romance, mas sim que nos faça descobrirmos a nós próprios, essa ideia circular e desamparada que me parece peregrina e desnorteada por - possivelmente - andar neste planeta há poucas décadas.)



Vamos imaginar uma bela e perfeita frase portuguesa:

Até mais não.

Monday, January 05, 2009

As intermitências de um blog, blogue, blog, sinto-me um peixe ao articular a palavra blog, e blogue também, e blague também

Os Cus de Judas é a fenomenal descoberta do final de dois mil e oito,

(entro eu agora algo,
algo,
algo,
algo,
atrasado no comboio dos sumários de preferências do ano, não é por charme nem por falta de tempo, é aquela merde do je ne sais quoi, vem alguém certeiro e diz que é capricho e falha por pouco, apesar de certeiro, falha por pouco, apesar de certeiro, falha, certeiro)

antecedido pelo ditosíssimo A Casa dos Budas Ditosos; pois, narrativas devassas, excessivas, a primeira leva logo com a severa reprovação da ditadura literatura pura e crua e nua, em que parece que querem ler toda a gente a escrever com contenção e depuração... gosto de barroco e de rococó, eu e muita gente mais, os entusiasmados, pode cansar, caramba, mas é de energia que a vida precisa, descansamos no ataúde, até lá temos de buzinar furiosamente como se o Carnaval fosse o momento mais sossegado das nossas experiências.

A motivação contagia-se, amigos e amantes, a melancolia tem a sua doçura, mas há que variar e avariar o gosto.

Friday, December 05, 2008

Pop de popular; Impop de impopular?

A desgraça do Adolfo foi não ter um consultor de imagem à altura.
Qual altura? Na verdade, a grandeza tem estes inconvenientes: quando se é supremo, especulo, só semelhantes seres superiores lhe são acessíveis (aliteração involuntária), e assim lhe chegam à vista e ao ouvido.

Por que razão não pode um expressivo tirano ser efeminado?

Thursday, November 20, 2008

A distância que vai do convite à intimação (por vezes, nenhuma distância)

"Sorria!
Está a ser filmado!"

Quem exclama sou eu.

Que coisa social e tribal é esta? Sorria? Sorrio para quê? Quem me paga? E se estiver mal-disposto? Indisposto? Muito? Vão fazer o quê? Multar-me? Invectivar-me? Sorrir-me...?

E que razão é essa de se (dever?) sorrir porque se está a ser filmado? E que tal nos urinóis convidarem-me a sorrir porque estou a urinar? No dentista, sorrio porque tenho a boca aberta para a luz? Ninguém admite suportar a reprodução (palavra escolhida a dedo, aqui se denuncia a minha perversidade, olhem eu a acabar a frase aí mesmo) de filmagens de pessoas numa fila em espera no banco? O banco não me admite como cliente se não lhes sorrir para o buraco negro?

Se é uma intimação, senhores, rio, faço o pino e ando sobre as mãos, para ficarem com um filme bonito para... pois, para o que bem ou mal vos aprouver. Espero sim que ninguém me entreviste e pergunte o que sinto, gosto tanto mais de ser honesto quando sei que vai resultar num espalhafato.

Se é um convite, obrigado, vão lá vocês mesmos sorrir diante do vosso próprio buraco negro.